sexta-feira, 27 de abril de 2012

STF e Sistema de Cotas em Universidades

"Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) validou nesta quinta-feira (26) a adoção de políticas de reserva de vagas para garantir o acesso de negros e índios a instituições de ensino superior em todo o país. O tribunal decidiu que as políticas de cotas raciais nas universidades estão de acordo com a Constituição e são necessárias para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil." (fonte - globo.com: http://migre.me/8QOt9)


Essa decisão do STF foi uma mostra escancarada da alopoiese jurídico-política do nosso país. Ora, esse "sistema de cotas" é uma demagogia da pior qualidade, é a velha tentativa de "tapar o Sol com a peneira". Que as "Vossas Excelências" do Congresso tirem os mensalões das cuecas e invistam nos ensinos fundamental e médio públicos, para que seus estudantes sejam capazes de concorrer com os demais. O sistema é tão falho que apenas as "raças" (apesar de achar esse termo preconceituoso, visto que há apenas uma: a humana) negra e indígena e a matrícula em escola pública, no ensino médio (presumindo-se a insuficiência patrimonial do candidato para pagar por um ensino de melhor qualidade), são critérios para a concorrência das vagas. E isso é facilmente "burlável", como já se teve ciência de aluno que é matriculado em colégio da rede estadual pela manhã, mas faz cursinho preparatório para o vestibular à tarde, aumentando as suas chances de aprovação nas vagas por cotas.
Nosso políticos são tão despreparados (além de corruptos) que criar um sistema desses para ingresso na faculdade é admitir a incompetência de todos os congressistas anteriores e presentes, pois está se admitindo que a principal estrutura para o desenvolvimento da sociedade brasileira é precária (se bem que tentar afirmar que a situação da educação básica não é ruim seria muita cara-de-pau). Admitem que não sabem (ou não querem) exercer as funções dos cargos para os quais foram eleitos. Esta lei é uma torta de creme jogada às nossas faces, chamando-nos de palhaços, dando-nos um falso respaldo de que negros (pobres) e indígenas podem realizar o sonho de fazer um curso superior, quando a própria quantidade de universidades (e suas respectivas vagas por cotas) é insuficiente para atender à população.
O STF, na condição sui generis de Guardião da Constituição, não deveria ter cedido à influência política, evitando essa alopoiese em que se encontram os três Poderes, e ter decidido afirmando que o direito à educação, referido no art. 6º da CF/88 - quando, na verdade, teria sido melhor alocado no art. 5º, referente aos direitos e deveres individuais e coletivos, por ser essencial à observância do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana (fator individual contido em todos que compõem a coletividade) e sua prestação um dever do Estado - assim como qualquer outro direito, não pode ser concedido às migalhas, em partes, neste caso, oferecendo o acesso à educação de "qualidade" (pois, apesar de todas as dificuldades que enfrentam as universidades, sabemos que o nível educacional é satisfatório) apenas no ensino superior, deixando uma imensa lacuna nos ensinos fundamental e médio, comprometendo a formação do cidadão. Pois, esta se dá enquanto jovem, e é nesta que se prepara o indivíduo para a convivência social, como se fazia nas escolas da Antiga Grécia, em que se conhecia a si mesmo e o seu papel na sociedade. Todos tratados como iguais desde cedo.
Apenas a mudança na educação básica corrigirá o histórico de discriminação racial no Brasil, mas isto leva muitos anos, décadas, e o mandatos eletivos duram apenas quatro anos (e os Ministros do STF parecem estar gostando dos seus 15 minutos de fama).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

TV Aberta Brasileira e Desabafo de Wagner Moura

Vagando pelo Facebook, eis que um amigo compartilha a seguinte mensagem, que dizem ser de autoria do ator Wagner Moura, sobre a idiotice presente no Programa Pânico na TV (atualmente "na Band"):


Palavras do ator Wagner Moura sobre o Pânico na TV, em carta aberta, divulgada no globo.com:

“Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo “que coisa horrível” (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.

” O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice ”

O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.

” Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência ”

Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.

No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a “cagada” que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?"
 — com Oriane de Borba.


Há muito tempo deixei de ver a programação da televisão aberta brasileira, e passei a "gastar" meu tempo com a internet, pois nesta ainda podemos fazer um "filtro" sobre notícias e entretenimento que nos interesse de fato, e com algumas séries americanas (tenho que admitir: os enlatados do Tio Sam são muito mais bem escritos e produzidos (com temas fantásticos, como Fringe, Boardwalk Empire e Game of Thrones, por exemplo) do que as produções de telenovelas brasileiras, que se resumem a um casal apaixonado e uma meretriz tentando separá-los, e com bons livros.
Já assisti, ainda que raramente, ao Programa Pânico, e concordo que algumas coisas são extremamente apelativas: cenas em que o humor inteligente e criativo dá lugar à babaquice e ao sensacionalismo barato, como a assistente de palco que teve seu cabelo raspado, fazendo-se de "vítima". O nosso povo já foi mais inteligente, como disse o jornalista Carlos Nascimento, e, como se isso não bastasse, está ficando cada vez mais cego, pois é esse comportamento que os corruptos dos Poderes Legislativo e Executivo das três searas (municipal, estadual e federal) desejam para nós, pois, assim, nos mantemos pobres e burros, ao passo que continuamos elegendo-os, e permanecemos neste ciclo vicioso.